Chaminé Rio de Janeiro: Reforma


A chaminé Rio de Janeiro, conquista do CERJ que percorre os 400 metros da face sul do Corcovado, teve sua conquista iniciada em 1946 por Índio do Brasil Luz e finalizada em 49 por Sylvio Mendes e Reinaldo Behnken, em 5 investidas com pernoites.


Sua única repetição completa foi uma reconquista, em 1986, por Ronaldo Paes e Alexandre Mazzacaro, em estilo “cápsula”, em 5 dias. Foi um feito memorável, amplamente registrado pelos jornais da época. Além da escalada, eles conseguiram que o restaurante do cume parasse de jogar lixo pelo abismo da face sul e que a Comlurb retirasse toneladas de lixo da base, que foram reunidas por um mutirão de montanhistas.





Após falar com o DT do CERJ, estive lá com o Mohamed Salah (Momô) em setembro de 2018. Usando alguns camalots e instalando 5 chapeletas PinGo, escalamos um esticão de 50 metros, um de 20 e mais alguns metros de chaminé molhada. Vimos (e usamos) alguns grampos batidos pelo Igor Mesquita em 2015, que escalou poucos metros a mais que nós. Entendi que fizemos a “parada 2” onde Índio do Brasil parou a conquista. Trecho bonito e agradável de escalar, que termina após passar por uma “goteira”.



Em 2021 voltei a ter condições de tentar a via. O DT agora era o Julio Melo, e a diretoria do CERJ aceitou doar as chapeletas pro projeto. Me apresentaram o Gustavo Diniz e a Lívia Cardoso, que toparam ir lá quando voltaram de Pancas. Fomos no sábado 03/07/21. A P2 tinha uma goteira, igual à de 2018, e como a água escorre pela chaminé do 3° esticão, não conseguimos passar dali. Instalamos 5 chapeletas PinGo de inox 316, inclusive duplicando as 2 paradas, onde também trocamos a PinGo da esquerda por uma DuPla. Como 7 dias de estiagem não bastaram para encontrar a via seca, tivemos a idéia de rapelar a via toda, trocando proteções e limpando, antes de tentar escalar.



Em 11/7/21 fui com Leonardo Bravo e Raphael Santiago, do CEC, fazer o rapel de exploração. Deixamos um carro no Humaitá e um nas paineiras, e subimos pelos trilhos do trem até o estacionamento das vans no cume. Na última curva pra esquerda há uma grade baixa com uma porta, por onde saímos pra floresta, passando por uma cabine onde acumulam o lixo. Vimos uma trilha bem definida e suja, que logo desce pra esquerda, como mostrava o croqui da conquista. Seguimos por ela, e em poucos metros chegamos ao final da via.


Havia um pé de galinha bem corroído, então instalamos uma chapeleta PinGo no teto (rocha firme). O chão é coberto de cimento de obra, sobre terra. Rapelamos dali com 2 cordas emendadas, para passar todo o “lance do chapéu”. Parei em um platô de rocha no meio de uma horizontal, a cerca de 40 metros do cume. Instalei uma PinGo e tirei um parafuso com 2 elos de corrente que alguém havia instalado na linha da via. Dali eu via logo abaixo um grande platô de terra (último ponto de bivaque da conquista em 1949) e um cano, posicionado como um big bro, na chaminé à esquerda da horizontal, mas não pude pesquisar o que era.


Dalí pingava água, molhando um trecho por onde a via parecia passar. Com um rapel curto, passando pela terra, cheguei ao topo da próxima chaminé, onde instalei a 3ª PinGo (local ruim para parada). Alí havia um conjunto de 12 cabos elétricos, atravessando a chaminé na altura das pernas. Mais um mistério.

Desatamos as cordas e passamos a rapelar com uma de cada vez, para reduzir o risco de alguma se prender nos rapéis. No rapel seguinte vi bastante cimento que escorreu de alguma obra no cume, cobrindo a rocha e as raízes dentro da chaminé rasa. Com 2 rapéis (mais 1 PinGo instalada) cheguei ao acampamento 5, o único local de bivaque realmente espaçoso e confortável, onde havia uma árvore enorme pra rapelar. Mais 2 rapéis (da árvore e de outra PinGo) e chegamos ao platô que parecia ser o acampamento 4 da conquista, com outra boa árvore pra rapelar. Ali achei uma garrafa pet cheia d’água, que parecia de escaladores. Rapelando dali, vi grampos de outra via à esquerda do platô. Provavelmente o Atalho do Diabo.



Rapelando mais uns 20 ou 25 metros instalei outra PinGo, depois mais outra, onde a chaminé parecia acabar. Precisávamos ir pra direita e trocar de chaminé. À direita havia um lance de aderência, mas não sabíamos se seria o melhor ponto pra fazer a horizontal. Rapelei de novo e instalei uma PinGo na rocha lisa entre as duas chaminés. No rapel seguinte consegui entrar na chaminé da direita, parando sobre um pequeno bloco de pedra em forma de cubo (acampamento 2 da conquista, onde Sylvio Mendes e Reinaldo Behnken dormiram sentados e bem amarrados em março de 49). Havia marca de grampo original e instalei uma PinGo. No rapel seguinte finalmente cheguei ao trecho que conhecia, de onde havia descido com Gustavo e Lívia, e antes com o Momô. Local especialmente desconfortável, sem lugar pra pisar. Mais 4 rapéis e chegamos à base. Nesse dia instalamos 10 chapeletas PinGo, sendo 3 de inox 316 e 7 de 304. Já era noite, mas a trilha estava bem marcada e chegamos ao carro da rua Viúva Lacerda em menos de 1 hora.



Sábado 19/7/21: fui pelo cume com a Mariana Lopes, pra continuar a limpeza e equipagem da via. Desta vez levamos uma corda só (55m), furadeira e chapeletas PinGo de inox 304. No primeiro rapel parei em um platô de terra com lixo antigo compactado, onde instalei uma PinGo pra rapelar até o platô de pedra horizontal na base do chapéu. Olhando o platô por baixo, se vê a ponta de um guarda-sol antigo do restaurante, azul e branco. Assim, chamamos o local de “platô do guarda-sol”. Armamos novo rapel, mas na hora da Mari rapelar, o mosquetão de rosca não saiu. Quando ela chegou até mim, a corda não correu na PinGo com o mosquetão, e tive de prusikar até lá. No caminho encontrei marcas de 2 grampos desintegrados e já instalei 2 chapeletas PinGo no lugar deles. A névoa constante começou a virar chuvisco e tive medo de continuar o rapel e a chuva nos pegar no meio da via. Mari ligou pra alguém no Cosme Velho e soube que lá também chuviscava, então decidimos subir de volta pro cume. Esse trecho do platô do guarda-sol até o cume foi fácil de guiar de tênis. 5 PinGos instaladas, mas uma será retirada pois foi reposicionada mais alto no platô do guarda-sol.



Voltamos no domingo 20/7 para continuar. Cheguei ao cano e descobri que é de plástico. Fiz um furo pequeno com a marreta e não saiu água. Imagino então que seja um eletroduto ou proteção usada na escalada. Uns 4 metros acima dele havia outro igual, mas a chaminé vai estreitando até fechar, então pode ter sido um caminho abandonado na conquista. Rapelando até os cabos elétricos, vimos um desencapado e bem enferrujado. Não tinha corrente elétrica (testei), mas não testamos os demais e continuamos rapelando. Até a metade da via, levei pelo menos duas pedradas no capacete.




Fizemos a troca de chaminés em um ponto mais alto desta vez, instalando outra PinGo fora da via pra isso. Acho que encontrei a linha para fazer a troca escalando, em aderência com pequenas fendas. O próximo rapel nos levou ao meio do 4° esticão, e o seguinte até o “cubo” de pedra entalado que deve ser a P3.




No rapel seguinte instalei outra PinGo e deixei um furo pronto, pra equipar melhor o esticão. No 2° esticão retirei o “degrau” de ferro retorcido e um grampo antigo da P1, que saiu inteiro. Enquanto a Mari cuidava dos ovos do urubu, na P1, rapelei o 1° esticão e cortei o pé de galinha que fixava os restos de um cabo de aço, (já substituído por um A0 em chapeletas). Foram 9 PinGos instaladas no dia, e alguns furos deixados prontos.









Pelo que vi, o maior desafio da via é encontrá-la seca. Fomos depois de 7 dias sem chuva e a água ainda escorria. Parece que a terra no cume e a vegetação nas chaminés deixa a água descer lentamente, perdurando por muitos dias. No inverno a via não pega nenhum sol, o que pode atrasar mais a secagem. E ainda não sabemos se os ralos do banheiro do cume são canalizados até a área urbana, ou se desembocam na terra do cume. A planta hidráulica do restaurante deve mostrar.


Nesta reforma parcial a via recebeu 30 chapeletas PinGo e 2 duPlas (nas primeiras paradas) mais 2 PinGos fora da via. Quem quiser escalar a via toda deve levar camalots do 0,5 ao 6, repetindo as peças do n°1 ao 4, 1 corda de 60m, e procurar mais marcas de proteções originais (eram 48), para substituí-las. Desenhei um croqui da via, que precisa ser revisado escalando. Acredito que a chaminé Rio de Janeiro nunca será popular, mas essa reforma parcial deve viabilizar escaladas mais freqüentes, reduzindo esses longos intervalos entre as repetições.









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